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  • Norman Arruda Filho

A arte de encontrar o consenso a partir do dissenso/The art of finding common consent from dissent

Atualizado: 13 de Mai de 2019

Artigo escrito por Dr. Norman Arruda Filho. English version below.


Há alguns dias, presenciei emergir em sala de aula mais uma daquelas discussões saudáveis sobre o que são verdadeiras atitudes sustentáveis. A habilidade de se expressar, a pluralidade dos pontos de vista e a capacidade de avaliar de forma crítica com base em argumentos sólidos são características que aprecio muito e que, portanto, procuro incentivar em minhas aulas.

Assim, enquanto vejo os alunos engajados e instigados a opinar, questionar e criticar, sorrateiramente deixo as vozes correrem soltas e apenas observo. Mal sabem eles que, para mim, esse é um momento de grande aprendizado e satisfação.

Na vanguarda pela educação para a sustentabilidade já participei de muitas dessas discussões. Ainda em 2004, estive com o ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, em um importante evento da iniciativa Pacto Global que busca inspirar empresas a adotarem princípios mais responsáveis; em 2006, reuni-me com outros reitores de universidades do mundo todo para traçar os Princípios da Educação Executiva Responsável (PRME); conheci Ban Ki Moon, também ex-secretário-geral da ONU em 2015, no lançamento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável; e no ano passado, estive com outros diretores de escolas em um evento comemorativo dos dez anos do PRME, onde pensamos os novos passos da iniciativa rumo ao horizonte 2030.

Portanto, para mim, ver os alunos discutindo sustentabilidade é um retrato de como toda essa concepção está sendo entendida pela sociedade. Ao escutá-los avaliarem as iniciativas das empresas, questionando o que é de fato legítimo ou não; vê-los defenderem mudanças estruturais nos modelos de gestão seja na esfera pública ou corporativa; e principalmente, presenciar discussões sobre os modelos de ensino e a importância da disseminação da educação e da cultura para a sustentabilidade representa uma conquista.

Mostra o quanto evoluímos das resoluções do Relatório de Brundtland para um mundo em que o pensamento sustentável e, consequentemente, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável fazem parte não somente da agenda dos Governos, das empresas, das escolas e da sociedade civil, mas principalmente, são parte do cotidiano das pessoas.

A grande questão é que o termo sustentabilidade começou sua trajetória cercado por enigmas que somente grupos específicos sabiam lidar. Atrelado ao cunho prioritariamente ambiental foi por vezes mal interpretado, mal compreendido e até mesmo maquiado (o famoso greenwashing). O desenho do tripé que atribuiu o mesmo peso aos eixos social, econômico e ambiental veio facilitar o entendimento comum da abrangência da sustentabilidade e a importância desse equilíbrio. Porém, essa ainda é uma visão limitada.

Principalmente se considerarmos as colocações de ecossocioeconomista, Ignacy Sachs, que de forma extraordinária, nos mostrou que há muitas outras dimensões a considerar. Para Sachs, há ainda questões culturais, ecológicas, territoriais, políticas e planetárias que representam implicações nesse caminho para o equilíbrio.

Por isso, mesmo já ultrapassado 30 anos do que ficou conhecida como a primeira definição do conceito de desenvolvimento sustentável, isso está longe de ser unanimidade. O que particularmente, acho ótimo!

Tanto o conceito quando o que representam as práticas do ideal sustentável ainda precisam ser construídos. Assim como observado pelo pesquisador Steven Johnson, as boas ideias surgem da colisão entre palpites que se unem para formar algo maior, porém precisam de tempo para amadurecer (vídeo “Como surgem as boas ideias”). Por isso, acredito na riqueza dessas discussões sejam elas nas salas de aula, nos corredores das empresas ou nas mesas de café. O importante é a combinação das ideias em uma construção contínua e coletiva, pois é no dissenso que encontraremos o consenso para um mundo mais justo e responsável.

Um dos meus exercícios favoritos nas aulas de mestrado é convidar os alunos a reconstruírem o conceito de desenvolvimento sustentável. Há sete anos levamos mais de duas horas para chegar a um consenso. Na última turma de 2017, em trinta minutos tínhamos uma resposta. E quer saber qual a palavra mais recorrente em todas as novas definições encontradas? Transformação.

Afinal, o que é encontrar o consenso a partir do dissenso senão experienciar um processo de transformação. É exatamente isso que encontro ao observar as calorosas discussões em sala de aula: alunos que evoluem da posição de observadores para – empoderados de conhecimento - se transformarem em protagonistas desse desenvolvimento sustentável.

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The art of finding common consent from dissent


A few days ago, I witnessed one of those healthy discussions being brought up in the classroom about what could truly be considered sustainable attitudes. The ability of expressing oneself, the plurality of points of view and the capacity to assess critically on the basis of solid argumentation are characteristics that I very much appreciate and, therefore, seek to encourage in my classes.


Hence, while viewing students engaged and instigated to speak up, question and criticize, stealthily, I let their voices run freely and simply observe. Barely do they know that, for me, this is a moment of great learning and satisfaction.


Being at the forefront of education for sustainability, I have already taken part in several of those discussions. For instance, back in 2004, when I was with the former Secretary General of the UN, Kofi Annan, in an important event of the Global Compact initiative, which seeks to inspire companies to adopt more responsible principles. Or in 2006, as I gathered with other deans from all over the world to draw up the Principles for Responsible Management Education (PRME). I also got to know Ban Ki Moon, another former Secretary General of the UN in 2015, at the launch of the Sustainable Development Goals. And two years ago, with other school principals in a commemorative event, PRME’s ten-year anniversary, where we took the opportunity to think about the new steps of the initiative heading towards 2030.


Thus, personally, watching students discussing sustainability is a clear depiction of how such conception is being understood and taken in by our society. Just listening to them assessing the initiatives of the companies, questioning what is, in fact, legitimate or not, also seeing them defend structural changes within management models, be it in a public or corporate sphere, and mainly, being able to witness discussions regarding teaching methods, the importance of disseminating education, as well as their knowledge of the current sustainability culture, represents to me quite an achievement.


It all comes to show how much we have evolved since the resolutions of the Brundtland Report for a world in which sustainable reasoning and, consequently, the Sustainable Development Goals take part in, not only the governments’ agendas, companies’, schools’ and the civic society’s, but mainly they are part of people’s everyday thoughts.


The main issue is that the term sustainability started its trajectory surrounded by conundrums which only specific groups could tackle. Tied down to the nature of being primarily environmental, it was sometimes misinterpreted, misunderstood and even embellished (the famous greenwashing). The outline of the tripod which attributed the same weight to social, economic and environmental axis facilitated the common understanding of the scope of sustainability and the importance of this balance. Yet, it is still a restricted view.


Mostly if we take into consideration the collocations from ecosocioeconomist, Ignacy Sachs, who rather extraordinarily demonstrated to us that there are several other dimensions to consider. According to Sachs, there are still cultural, ecological, territorial, political and planetary issues which represent implications on this path to balance.


Consequently, even after 30 years since the very first definition of a sustainable development concept became known, this is far from reaching unanimity, which I personally think is great!

Both the concept and what represents the practice of sustainable ideals are still in need of construction. As observed by the researcher Steven Johnson, good ideas emerge from the clash between hunches, which unite to become something bigger, yet require time to mature (video “How good ideas emerge”). That is why I firmly believe in the wealth of these discussions, whether in classrooms, halls of companies or at coffeehouse tables. The important aspect is the combination of ideas in a continuous and collective framework, for it is in the dissent that we shall find the consent for a more just and responsible world.


One of my favorite exercises in my classroom of master’s is to invite the students to reconstruct the concept of sustainable development. Seven years ago, the first group took two hours to come to a consensus. In the class of 2017, within thirty minutes the students come up with an answer. And, would you like to know the most recurrent word in all the new conjured definitions? Transformation.


After all, what is it to find common consent from dissent if not to experience a process of transformation? That is precisely what I come across while observing the warm discussions in the classroom: students who evolve from being mere observers to – empowered by knowledge – becoming protagonists of this sustainable development.

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