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  • Norman Arruda Filho

Para a Economia Criativa decolar: educação

Criatividade como matéria-prima. Essa é a base do novo ramo econômico chamado Economia Criativa. Definida pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento — UNCTAD (2012), como “ciclos de criação, produção e distribuição de bens e serviços que usam a criatividade e o capital intelectual como principais insumos”, a Economia Criativa, mesmo em tempos de crise, tem apresentado significativo crescimento médio mundial, alcançando $ 592 bilhões em 2008 – mais que o dobro do volume em 2002.


De fato, esse setor tem se mostrado uma alternativa para países em desenvolvimento, que tentam driblar a crise ou sair dela. Ainda de acordo com a Conferência das Nações Unidas, em plena crise de 2008 o setor criativo continuou a evoluir e alcançou no mundo uma taxa de crescimento médio anual de 14%. E não poderia ser diferente, já que diante da era da informação e tecnologia, ter uma economia focada na inovação só acelera o processo de desenvolvimento. Além disso, o setor contribui para uma economia mais sustentável já que conta com um recurso extremamente renovável, adaptável e com grande capacidade para exploração, como a criatividade. O crescimento do setor contribui ainda com a regularização dos empregos dos trabalhadores criativos e com a geração de renda de bens e serviços.


Porém, apesar desse crescimento global, o Brasil parece ainda não ter despontado quando o assunto é criatividade, inovação e produtividade. De acordo com dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), com base na análise da produtividade de 43 países, o Brasil ocupou a 39º posição do ranking. Apesar de existirem apostas e investimentos no setor, ainda está muito aquém do que é feito em termos globais. Entres os mais bem colocados estavam Estados Unidos, Suécia, Suíça, Japão e Singapura – países referência na área educacional.


Então, se a Economia Criativa tem ligação direta com a educação, essa pode ser a justificativa para o setor andar a passos lentos no território nacional.


Educação


O Brasil se tornou prisioneiro de um circulo vicioso, onde para estimular o desenvolvimento econômico precisa apostar ainda mais no setor da Economia Criativa, mas para que ele decole é preciso investir na educação com foco na inovação, empreendedorismo e criatividade. O que nos leva a uma nova etapa desse círculo: a nossa educação está preparada para estimular a criatividade?


Em recente entrevista, o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Glaucius Oliva, caracteriza o modelo de ensino das universidades como fossilizado.


Nessa linha, não é de hoje que se discute uma reforma na área acadêmica. Desde 2010, o Plano Nacional da Educação (PNE) está em discussão. O projeto de lei traz 10 diretrizes e 20 metas a favor da qualidade do ensino no decênio 2011-2020. As propostas vão desde a valorização do magistério até o destino de 10% do PIB para políticas educacionais. Porém, ele só foi aprovado pela Câmara dos Deputados dois anos após a entrega do Governo Federal. Em maio de 2013 ele foi aprovado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, mas ainda precisa passar pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e pela Comissão de Educação (CE), antes de ser votado em plenário.


O risco desse longo processo de tramitação é a aprovação de um projeto de lei já superado em alguns pontos, que não atendam as novas demandas educacionais. Por exemplo, segundo estudo divulgado em agosto de 2012, pela Fundação Nacional da Qualidade (FNQ), a baixa qualidade do sistema educacional brasileiro está afetando a competitividade do país. Dos 137 líderes de empresas ouvidos, grande parte aponta a educação como insuficiente. Para mais de um terço (37%) dos entrevistados, o problema é o ensino básico. A falta de qualidade nos níveis universitário (32%) e técnico (31%) também é citada. Na prática, o déficit educacional vem forçando as empresas (44%) a investirem na melhoria da qualidade de ensino dentro e fora de suas atividades.


As teorias educacionais mais modernas já trazem uma série de novos modelos ou que complementam a educação tradicional. Jean Piaget (1983), por exemplo, defende a adoção da experiência na educação, onde o conhecimento não é transmitido, mas construído progressivamente por meio de ações e coordenações de ações que são interiorizadas e se transformam por meio de subestruturas anteriores.


Já Peter Senge (1990) e a sua teoria da aprendizagem organizacional, propõem justamente o ensino para formação de indivíduos mais criativos. As ideias do autor indicam que escolas, famílias e empresas, para se constituírem em organizações de aprendizagem, devem entender que aprender não significa reproduzir comportamentos ou memorizar conteúdos determinados, mas sim constituir a capacidade de reflexão, compreensão e a consequente autotransformação. Assim, as organizações passam a compreender aprendizagem como pessoas e grupos trabalhando para melhorar a inteligência, criatividade e capacidade organizacional.


Independente da teoria, o fato é que as formas de ensino atuais precisam ser modernizadas. A educação a favor da Economia Criativa deve se portar como um agente de mudança, que se preocupa com a formação de indivíduos empreendedores inovadores. Mas, sem um ambiente criativo, não teremos profissionais criativos.


Atualmente, vivemos um momento onde temos alunos do século 21, aprendendo com professores formados no século 20, seguindo modelos educacionais do século 19. Ou seja, precisamos redesenhar o modelo educacional, onde o professor forneça uma ambiência favorável à inovação, a partir do momento em que ele atua como estimulador de estudantes criativos.


Cultura da Inovação


Na falta de um mercado favorável para o desenvolvimento da Economia Criativa, esbarramos na questão da cultura da inovação. Segundo o estudo GEM – Global Enterpreneurship Monitor – lançado em fevereiro de 2013 -, aproximadamente 99% dos empreendedores, iniciais e estabelecidos, não acreditam que seus produtos ou serviços são inovadores.


Embora curioso, este não é um fato novo. De acordo com o Índice de Inovação Global 2012, da organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), o Brasil continua em posição desfavorável no ranking de 141 países estudados, ocupando o 58° lugar, já que, com relação ao índice de 2011, o Brasil perdeu 14 posições.


O investimento em inovação também é um sério problema. Para os padrões europeus, o investimento deve ser de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) e o Brasil ainda não está nesse patamar: os recursos destinados ao setor de ciência, tecnologia e inovação, em 2012, foi de 1,16%, valor mais baixo que o de países de economias menores.

Pelo menos, a favor da inovação no Brasil está a atenção que algumas áreas do Governo e instituições acadêmicas parecem dispor. Esse ano foi sancionada a Lei de Inovação do Paraná que promete garantir benefícios e estabelecer mecanismos de cooperação entre os setores público e privado, além das universidades para desenvolvimento científico e tecnológico. Embora um dos últimos Estados a sancionar uma lei específica ao segmento, o Paraná conta com uma das mais maduras e completas, quando comparada com as dos outros Estados.


Sabemos que vivemos um momento de desaceleração econômica pouco favorável ao desenvolvimento, mas, momentos de crise exigem novas oportunidades em termos de abordagens e estratégias. De forma geral, o investimento em produtos e serviços criativos é uma alternativa as operações econômicas tradicionais que podem contribuir com o desenvolvimento do país e neutralizar os efeitos de futuras crises econômicas, uma vez que este setor tem como base um recurso infinito: a criatividade.


O Governo brasileiro vem avançando no setor com a institucionalização da Secretaria da Economia Criativa que tem como missão garantir a formulação de políticas para o desenvolvimento de um ambiente favorável a profissionais e micro empreendimentos criativos. Mas, ainda assim, os resultados são pouco expressivos.


Afinal, nada adianta alcançarmos o 6.° PIB mundial, se não nos tornarmos uma nação desenvolvida na essência, que gera e vende conhecimento. Sendo assim, ao investirmos na Economia Criativa contribuímos não só com a produtividade brasileira, mas também para o avanço da competitividade do país.


Norman de Paula Arruda Filho

Presidente do ISAE/FGV, membro da diretoria do Comitê Brasileiro do Pacto Global, um dos mobilizadores dos Princípios para Educação Empresarial Responsável da ONU no Brasil, fundador da Cátedra Ozires Silva em Empreendedorismo e Inovação Sustentáveis, e professor do Mestrado Profissional em Governança e Sustentabilidade do ISAE.

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